Breve Crítica à ‘fabricação’ do consentimento e aos limites éticos do Marketing à luz do caso Edward Bernays. Como o marketing introduziu o bacon no café da manhã?
Edward Bernays foi um grande propagandista do século XX, pioneiro austro-americano no que tange às relações públicas e à propaganda. Foi precedido por pensadores conservadores da psicologia social como Gustave Le Bon e Gabriel Tarde, que defendiam o pensamento irracional humano. Além disso, foi inspirado nas ideias de Walter Lippmann, um jornalista americano que acreditava na fácil manipulação a partir da classe mais esclarecida (elite americana) sobre o “rebanho popular”.
O que pode ser observado durante o desenvolvimento dessas ideias, é cada vez mais a substituição da violência e ação policial, pela utilização da manipulação através da propaganda para ‘domesticar’ as classes populares.
É nesse contexto que entra Edward Bernays, que conseguiu colocar em prática as ideias de Lippmann. Fazendo o uso da manipulação inconsciente das massas, depois de estudar os conservadores da psicologia social, passou a ser conselheiro de relações públicas de empresas e partidos políticos. Um marco na carreira de Bernays se deu quando a maior empresa do ramo alimentício, Beech-Nut, o contratou em 1925, para cuidar do marketing de um produto: o bacon.
Consequência
Nessa época, o bacon não fazia parte do cardápio americano como hoje… Bernays não só conseguiu vender o bacon da empresa contratada como colocá-lo definitivamente na mesa de café da manhã dos americanos. Como? Ele construiu uma campanha em cima disso e fez com que mais de 4 mil médicos recomendassem o bacon como alimento necessário para iniciar o dia.
Acontece que, anos mais tarde, alguns estudos demonstraram o contrário. Uma pesquisa do Instituto Karolinska, de 2012, mostrou que quem come duas fatias de bacon por dia tem 19% mais chances de desenvolver câncer de pâncreas do que quem não consome diariamente. Além disso, o bacon é rico no colesterol LDL, o que contribui para problemas cardiovasculares.
Os hábitos alimentares dos Estados Unidos fizeram do país por muito tempo o líder em quantidade de pessoas obesas. Ademais, um levantamento feito pelo Sistema Nacional de Estatísticas Vitais norte-americano, de 2018, revela que a principal causa de morte no país se dá por doenças cardíacas.

Como o marketing introduziu o bacon no café da manhã – Conclusão da Breve Análise Crítica
O caso do bacon de Edward Bernays é apenas um dentre os que findaram e impactaram hábitos e culturas com seu marketing. É inegável que o propagandista pode ser considerado uma das maiores figuras da área… porém, o que é questionável em seus trabalhos é até onde o marketing pode participar da fabricação de um consentimento sobre causas que, na verdade, são terminantemente negativas do ponto de vista ético. (Além dos ovos com bacon, o “pai das relações públicas” também é responsável pela disseminação do hábito de fumar, patrocinado pela indústria do cigarro).
Para nós, não interessa qual o retorno financeiro, e esse caso evidencia a prática de atitudes absolutamente condenáveis. O marketing precisa ser utilizado como ferramenta de divulgação responsável e empática de expansão de mercados e de público, não como instrumento de manipulação e divulgação de inverdades.
Referências
BERNAYS, E. Comment Manipuler l’opinion en démocratie. Trad. Oristelle Bonis. Paris: Ed. La Découverte, [1928] 2007.
HAN, Byung-Chul. O Enxame. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2018.
Por Gabriella Forbeci – 220MKT


